Você conhece ou, até mesmo, é aquela pessoa que acaba de comer e já está pensando na próxima coisa que vai comer? Para algumas pessoas, os pensamentos sobre comida são tão frequentes que interferem na concentração e no bem-estar.
Esse fenômeno tem nome: ruído alimentar, que vem do inglês food noise. O tema desperta interesse dos pesquisadores e ganha cada vez mais destaque nas discussões sobre o tratamento de obesidade.
Para o médico e professor Dr. Gabriel Almeida, o problema não está em gostar de comer, mas sim na frequência com que a comida ocupa a mente. “Uma coisa é sentir fome. Outra é não conseguir parar de pensar em comida”, afirmou.
Não se trata de falta de disciplina
Há quem diga que a solução para esse problema é só “fechar a boca” e ter força de vontade. No entanto, Gabriel alerta que mecanismos hormonais que regulam o apetite, as emoções e o sistema de recompensa também influenciam o comportamento alimentar.
Estresse, noites mal dormidas, dietas muito restritivas e a exposição a alimentos altamente palatáveis podem contribuir para intensificar esses pensamentos.
“É importante entender que esse comportamento não pode ser explicado simplesmente como falta de disciplina ou força de vontade”, destaca o médico.
O fenômeno ainda pode dificultar o emagrecimento, já que a atenção está constantemente voltada para a comida, manter mudanças alimentares pode se tornar desgastante e favorecer episódios de alimentação impulsiva.
Pesquisa identifica uma possível maneira de reduzir o ruído alimentar
Um estudo publicado na revista Advances in Therapy em 2026 investigou a percepção de 550 adultos nos Estados Unidos que utilizavam semaglutida injetável para controle do peso.
No resultado, a pontuação mediana de ruído alimentar caiu de 13 para 6 pontos, em uma escala de até 20. Isso sugere uma possível redução dos pensamentos persistentes sobre comida entre usuários do medicamento.
Entretanto, por ter sido feita de forma retrospectiva e baseada em relatos dos participantes, a pesquisa não pode concluir que a semglutida tenha sido, isoladamente, responsável pela mudança.
A semaglutida e a tirzepatida atuam nas vias hormonais responsáveis pela regulação do apetite e da saciedade. Para Gabriel, em sua prática clínica, os pacientes descrevem que além de sentirem menos fome, passam a pensar menos em comida.
Ainda assim, isso não significa que qualquer pessoa que tenha esses pensamentos tenha indicação para tomar esses medicamentos.
Quando é recomendado buscar ajuda?
Não necessariamente pensar em comida ao longo do dia significa ter um problema de saúde. O alerta deve acender quando esses pensamentos ficam difíceis de controlar e chegam a provocar sofrimento.
Nesse caso, a avaliação médica ajuda a investigar o padrão alimentar, a qualidade do sono, os aspectos emocionais e a possível presença de condições como obesidade ou compulsão alimentar.
Para Gabriel, o objetivo do tratamento deve ir além da redução do peso. “Emagrecer com saúde não deve representar uma batalha permanente contra a própria fome. O objetivo é construir uma relação mais equilibrada com a comida e alcançar resultados sustentáveis”, conclui.
Fonte: Bnews





