Entrevista.BA: Claudio André analisa disputa entre Jerônimo e ACM Neto

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Cientista político aponta equilíbrio nas pesquisas e destaca peso do lulismo e das diferentes geografias do voto

A pouco menos de uma semana do primeiro turno das eleições de 2026, a disputa pelo Governo da Bahia entre o governador e candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues (PT), e o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil), chega à reta final marcada pelo equilíbrio nas pesquisas e por diferentes comportamentos eleitorais entre a capital, as grandes cidades e o interior.

O Entrevista.BA convidou o professor e cientista, Cláudio André, para bater um papo e repercutir os levantamentos recentes divulgados, que alternaram pequenas vantagens entre os dois principais candidatos.

Na pesquisa Real Time Big Data divulgada em 28 de setembro, Jerônimo apareceu com 47% e ACM Neto com 43% no primeiro turno, diferença que ficou dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Já a Quaest, divulgada em 24 de setembro, apontou ACM Neto com 42% e Jerônimo com 40%, também em empate técnico, considerando a margem de erro de três pontos.

Para Claudio André, a leitura desse cenário exige cautela e não pode ser feita apenas a partir da comparação entre os números de cada instituto. “A gente tem um cenário muito polarizado. Tem aí uma guerra de Jerônimo querendo conquistar o eleitorado da capital, e ACM Neto tentando conquistar o eleitorado do interior do estado.”

Segundo o cientista político, a eleição de 2026 também precisa ser analisada a partir das diferenças em relação ao pleito de 2022. “A gente vai perceber que o tempo inteiro havia uma tendência a enxergar 2026 como foi 2022. E foram duas eleições relativamente diferentes.”

Lulismo é apontado como fator de conexão

Na avaliação do cientista político, uma das principais diferenças está no peso do voto associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na escolha para o governo estadual.

Claudio André afirma que, em 2022, parte das pesquisas e análises não conseguiu dimensionar adequadamente o chamado voto casado entre Lula e Jerônimo, fenômeno que teria contribuído para a virada do petista naquele pleito. “Eu tenho chamado de um grande atalho de representação política que leva o eleitor lulista a olhar a disputa estadual acoplada, imbricada com a disputa presidencial.”

Para ele, o comportamento do eleitorado em 2022 demonstrou a força dessa associação em um ambiente de polarização política. “Em tempos de polarização, me parece que esse eleitorado, em 2022, deu uma resposta mais efetiva quanto ao voto casado, ao voto de Jerônimo e Lula.”

O cenário atual, segundo Claudio André, parte de uma condição diferente para ACM Neto. “Em 2026 não há esse favoritismo por parte de ACM Neto. Ele não entrou na eleição como franco favorito, como candidato de oposição muito bem posicionado.”

O cientista político considera que as pesquisas deste ano vêm apresentando uma disputa mais ajustada, ainda que os resultados variem conforme o instituto e a metodologia. “Tivemos a pesquisa da Atlas, a da Quaest, também a própria Real Time Big Data demonstrando exatamente este cenário.”

“O panorama geral é um quadro muito equilibrado”

Para Claudio André, o conjunto das pesquisas de setembro aponta para uma disputa sem uma diferença estatisticamente consolidada entre os dois principais candidatos. “O panorama geral que a gente tem nas pesquisas é um quadro muito equilibrado.”

O cientista político acrescenta que o caso baiano possui uma particularidade relacionada à influência de Lula sobre o comportamento eleitoral. “O caso da Bahia é especial porque, novamente, a gente tem um preditor de votos que envolve o fenômeno da presença, desse legado, dessa visão que há em relação a como o presidente Lula lidera um atalho de informação e representação quando o eleitorado vai pensar o voto para o estado, o voto para o governador.”

“Duas geografias do voto”

Outro ponto central da análise é a diferença entre o comportamento eleitoral da capital e das grandes cidades em relação ao interior.

Claudio André chama esse fenômeno de “duas geografias do voto” e afirma que a divisão pode ser determinante para compreender o resultado das urnas. “A gente tem duas geografias do voto diferentes. A gente tem ali a geografia do interior e a geografia da capital e das grandes cidades baianas.”

Na avaliação dele, o desempenho de ACM Neto nas maiores cidades não necessariamente se transforma em vantagem no território como um todo.

O cientista político cita o resultado de 2022 como exemplo e afirma que a força de Jerônimo em municípios do interior foi determinante para a vitória no segundo turno. “ACM Neto farmou muita aura ali nas grandes cidades e o interior falou mais alto.”

Segundo Claudio André, quando se observa o comportamento das 30 maiores cidades da Bahia, que concentram parcela significativa do eleitorado, há um viés favorável a ACM Neto.

“Quando a gente analisa o voto nas 30 maiores cidades, que representa quase metade do eleitorado baiano, a gente percebe um viés claro de favoritismo, liderança, exatamente do ex-prefeito ACM Neto, puxando esse bonde o trabalho feito em Salvador e com impacto direto na Região Metropolitana.”

Mas o cientista político ressalta que a análise muda quando o olhar deixa de estar concentrado apenas nas maiores cidades e passa para os territórios de identidade.

“Sociologicamente, você tem uma grande cidade num território que ficou mais propensa a ACM Neto, mas o território, como um todo, ao chegar às urnas, deu um voto em Jerônimo Rodrigues.”

Como exemplo, ele cita Vitória da Conquista e o sudoeste baiano. “Olha o caso do sudoeste baiano. No caso de Vitória da Conquista, você tem ACM Neto vencendo, mas no território quem ganhou foi Jerônimo.”

Interior pode voltar a decidir a eleição

A extensão territorial da Bahia também é apontada como um desafio para a leitura das pesquisas.

Claudio André afirma que a dinâmica eleitoral de municípios com grandes áreas rurais pode ser diferente daquela observada nas sedes municipais. “A Bahia é um estado muito rural.”

O cientista político cita municípios com grandes extensões territoriais e áreas rurais afastadas dos centros urbanos para ilustrar a dificuldade de captar determinadas dinâmicas por meio de pesquisas.

“Você não tem dentro da sede um fluxo. Tem outros municípios interessantes. No caso de Mata de São João, você tem uma sede mais distante da orla. Então, é como se fossem ali dois municípios do ponto de vista de fluxo de população e de eleitorado na hora que você vai fazer uma pesquisa.”

Na avaliação dele, essa característica pode fazer com que parte do comportamento eleitoral só seja percebida com maior precisão na apuração.

“É muito importante que a gente perceba que, mais uma vez, a gente tem talvez uma parte do eleitorado propensa a pensar nas eleições na reta final.”

Por isso, Claudio André afirma que os institutos ainda precisam considerar os desafios específicos da realidade baiana.

“Isso vai precisar ser melhor calibrado pelos institutos, pelas pesquisas, porque talvez, no cenário que a Bahia tem hoje, nós percebamos exatamente um cenário mais equilibrado.”

Saúde e segurança no centro da estratégia de ACM Neto

Na análise de Claudio André, ACM Neto também adotou uma estratégia de concentrar parte do discurso eleitoral em temas como saúde e segurança pública.

“Eu penso que, primeiramente, ACM Neto foi vitorioso na estratégia de tentar reduzir o debate das propostas a duas áreas que tendem a ser mais negativas na opinião pública para o governador Jerônimo Rodrigues, que são a saúde e a segurança pública.”

O cientista político também considera que o candidato do União Brasil conseguiu estabelecer uma presença mais próxima de pequenos municípios, embora não identifique, nas pesquisas, uma mudança ampla capaz de indicar uma virada consolidada nesse segmento.

“Não me parece que há uma grande reviravolta, pelo menos aparente, que a gente consiga inferir, uma grande virada do ex-prefeito nas pequenas e médias cidades.”

Segundo ele, a distribuição das alianças políticas também deve ser considerada na leitura do cenário. “Há um cenário que me parece que está mais mexido. É tipo aquela onda na praia que vem com mais areia. A gente mergulha, mas vê um pouco menos.”

Salvador e as maiores cidades entram na conta

Claudio André também destaca o peso de Salvador na disputa. O cientista político lembra o desempenho de Bruno Reis (União Brasil) na eleição municipal de 2024 e a votação de ACM Neto na capital em 2022 como elementos que precisam ser considerados na análise da geografia eleitoral.

Para ele, o resultado do próximo domingo dependerá da combinação entre o desempenho de ACM Neto nas grandes cidades e a capacidade de Jerônimo de preservar sua vantagem em municípios pequenos e médios.

“A gente teve em 2024 o prefeito Bruno Reis sendo eleito de forma muito vantajosa, com quase 78% dos votos válidos. ACM Neto teve 65% em 2022.”

Por isso, ele considera fundamental separar a análise dos grandes centros daquela feita sobre o interior. “Tem que olhar para essa geografia de Salvador e das grandes cidades e olhar para a geografia das pequenas e médias.”

Lula entra na reta final da campanha

A participação de Lula em ato realizado em Salvador nesta semana também é apontada por Claudio André como parte da estratégia de Jerônimo para fortalecer a conexão com o eleitorado lulista.

“A presença do presidente Lula nessa semana, fazendo um ato em Salvador para impactar inclusive visualmente a campanha no estado, eu penso que está dentro dessa estratégia do governador Jerônimo Rodrigues correr atrás do voto lulista.”

Para o cientista político, essa associação pode ser um dos principais elementos da reta final. “Eu penso que essa é a grande questão que a gente deve observar nessa reta final.”

Claudio André afirma que, caso Lula mantenha um percentual elevado de votos na Bahia, a capacidade de Jerônimo de converter parte desse eleitorado para a disputa estadual será determinante.

“Se o caminho for analisar o presidente Lula chegar a 70% dos votos válidos, é exatamente nesse conglomerado que o governador Jerônimo precisa conversar, dialogar e buscar o voto nessa reta final.”

Primeiro turno pode decidir eleição, avalia cientista político

Apesar do equilíbrio apontado pelas pesquisas, Claudio André avalia que existe possibilidade de a eleição para o Governo da Bahia ser definida já no primeiro turno. A avaliação, contudo, é apresentada por ele como uma leitura do momento, e não como resultado antecipado. “Eu entendo que tudo caminha para um cenário de primeiro turno.”

Questionado sobre uma eventual marca necessária para isso, ele respondeu: “50 mais um, numericamente.”

Na sequência, Claudio André apontou uma vantagem momentânea para Jerônimo em sua própria leitura do cenário, mas ressaltou que a disputa permanece aberta. “Se eu tivesse que gravar aqui uma projeção, eu vejo que o favoritismo está com o governador Jerônimo Rodrigues.”

Segundo ele, a possibilidade estaria relacionada a uma faixa de votação semelhante à registrada por Rui Costa em sua primeira eleição para o governo.

“Eu acho que muito mais na casa do que foi a eleição passada, 52% a 54%, que, por sinal, é exatamente o número que Rui Costa foi eleito pela primeira vez, em 2014.”

Ainda assim, o cientista político reforça que a eleição não estaria definida. “É um cenário muito equilibrado nessa direção”. E acrescenta: “Eu acho que o cenário não está totalmente cravado.”

Indecisos e articulações locais podem pesar

Na avaliação de Claudio André, os últimos dias serão marcados por uma disputa pragmática pelo eleitor que ainda não definiu o voto e por novas movimentações de lideranças municipais. “Essa rodada final é a corrida pelo voto dos indecisos. Há uma corrida final pragmática das lideranças do interior.”

Segundo ele, as articulações municipais ainda podem alterar o equilíbrio observado nas pesquisas. “Você tem ali movimentações que ainda podem colocar os dois como vitoriosos, um dos dois. Eu acho que o cenário não está totalmente cravado.”

Para o cientista político, a resposta definitiva estará na combinação entre essas duas geografias eleitorais. “Quando sair o resultado, depois a gente vai ter ali toda a clareza de pensar exatamente essas duas geografias: o que aconteceu nas grandes cidades e na capital, que é outro fator também.”

Ao fim, Claudio André resume a chave de leitura que considera fundamental para compreender a eleição baiana de 2026: observar simultaneamente o comportamento eleitoral de Salvador e dos grandes municípios e a força das candidaturas no interior.

A eleição para o Governo da Bahia acontece neste domingo (4), quando os votos serão contabilizados e será possível comparar o desempenho dos candidatos nas diferentes regiões do estado.

 

 

Fonte: Bahia.ba

Manuela Meneses/bahia.ba
foto Manuela Meneses/bahia.ba
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Sou Jornalista formado desde de 2014, radialista. Sempre em busca da informação