Impulsionados pelas redes sociais e plataformas digitais, disseminação de pornografia infantojuvenil, com cenas de estupro de vulneráveis e nudez, explode na Bahia
Por trás de vídeos curtos, grupos fechados e aplicativos cada vez mais populares, uma rede criminosa tem encontrado novas formas de explorar crianças e adolescentes na Bahia. Os dados alarmantes revelam o crescimento da divulgação de conteúdos de estupro e pornografia infantojuvenil nos últimos anos, evidenciando uma rede articulada de crimes desta ordem contra um público altamente vulnerável.
Estatísticas fornecidas ao Jornal Metropole pela Polícia Civil da Bahia apontam que, em três anos, houve aumento de cerca de 166% nos registros de crimes de divulgação de cenas de estupro de vulnerável, nudez ou pornografia infantil no estado. Em pouco tempo, saltaram de 267 em 2022 para 712 em 2025. O que equivale a quase o triplo de quatro anos atrás. Só de janeiro a abril de 2026, data do último balanço, foram notificados basicamente a mesma quantidade de casos notificados ao longo de 2022.
Prisão em Brotas
Em 7 de maio deste ano, um estudante baiano de Jornalismo foi preso em Brotas após denúncias do Esporte Clube Bahia apontarem que ele produzia e armazenava conteúdos de pornografia infantojuvenil em Salvador. O universitário de 27 anos se apresentava como fotógrafo nas redes sociais e era conhecido por estar sempre presente nos jogos.
A Polícia Civil, por meio da Delegacia Especializada em Repressão aos Crimes contra a Criança e o Adolescente (Dercca), recebeu relatos de torcedores que apontaram comportamentos suspeitos do rapaz, identificado como Danrley Souza Lessa. Segundo a investigação, iniciada em outubro, o estudante abordava adolescentes entre 14 e 17 anos para a produção e armazenamento de imagens envolvendo nudez.
Ao menos, quatro vítimas foram localizadas pelos investigadores e confirmaram os crimes. De acordo com a polícia, a maioria das cenas era gravada nas proximidades do centro de treinamento do clube, em Dias d’Ávila. Foi isso que levou o Bahia a denunciar o caso à Polícia
Estado foi alvo de operação nacional
Na mais recente fase da Operação Caminhos Seguros, ofensiva de âmbito nacional deflagrada entre 5 e 18 de maio deste ano, foram efetuadas 24 prisões em 14 municípios baianos e cumpridos 39 mandados de busca e apreensão, além da apreensão de 33 dispositivos eletrônicos contendo arquivos de material pornográfico infantojuvenil.
A força-tarefa da Caminhos Seguros também instaurou 56 inquéritos, concluiu 54 procedimentos com autoria identificada e registrou 271 boletins de ocorrência relacionados à operação. Durante o cerco, 26 vítimas foram atendidas, 12 denúncias apuradas e 19 locais mapeados.
Os baianos alvos da operação usavam as redes sociais para atrair crianças e solicitar vídeos e fotos ou marcavam encontros, nos quais abusavam das vítimas. Um dos investigados possuía cerca de 2.740 arquivos digitais com crianças e adolescentes.
A ação federal integra uma iniciativa coordenada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), em conjunto com as forças estaduais, para o levantamento de dados, combate e enfrentamento a esse tipo de crime.
Lado sombrio da internet
O aumento de casos registrados na Bahia não representa apenas a maior incidência de crimes, mas também prova como as denúncias fortalecem as investigações policiais e ajudam a identificar suspeitos. Advogada criminalista especializada em violência doméstica e crimes sexuais, a baiana Milena Pinheiro apontou que, embora esse tipo de crime não seja novidade, o avanço tecnológico facilitou o uso de plataformas virtuais para a reprodução de conteúdos impróprios.
“Antigamente, a gente tinha esse crime, só que em um ambiente de prática diferente. Você não tinha rede social, aplicativo de WhatsApp, Instagram e Facebook. A própria internet tinha uma dificuldade muito grande de comunicação. Hoje, a facilidade e a velocidade de acesso fizeram com que esse tipo de crime disparasse”, destacou Milena.
De acordo com a advogada, tratar do tema em ambientes comuns, como novelas, programas de televisão, escolas e comunidades, colabora para que os pais e as próprias vítimas compreendam e identifiquem a prática. Milena afirmou ainda que os aplicativos e as redes sociais devem ser responsabilizados nesses casos.
Denúncias ajudam a desmontar redes de abuso
Apesar da gravidade, o crime se esconde atrás de telas e usuários anônimos que dificultam a identificação e punição. Os órgãos de segurança prezam pela colaboração social através de denúncias, como é o caso do Ministério Público da Bahia. Segundo os dados apresentados pela entidade para o Jornal Metropole, entre os anos de 2021 e 2025 foram registradas 6.014 denúncias por estupro de vulnerável. A maior parte dos casos envolvem crianças e adolescentes. Só em 2026, já foram 726 registros.
O promotor de justiça Moacir Nascimento Júnior, uma das principais autoridades na área de crimes virtuais contra crianças e adolescentes no MP da Bahia, destaca que, apesar de ocorrer em ambiente digital, sempre há um componente físico em tais práticas ilegais, personificado em quem está manipulando o dispositivo. Para ele, as empresas responsáveis pelas redes sociais devem ser punidas e atualizadas para facilitar o processo de identificação dos usuários. Além disso, as operações de segurança pública nacional têm colaborado de maneira expressiva.
“A integração das forças policiais é uma constante. A Polícia Federal que trabalha com isso e está construindo interlocução com as equipes da Polícia Civil, com o Ministério Público Federal, vem tentando de alguma forma melhorar a eficácia do trabalho de repressão a esses crimes. Isso é fundamental para o combate a uma criminalidade tão complexa quanto essa do ambiente digital. O caminho é só um: investir em equipes de segurança e em equipes de moderação de conteúdo”, explicou o promotor.
Fonte: Metropole/Folha






