A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
Evidente que chegar à santidade, à canonização, é o resultado de um processo rigoroso de avaliação da existência humana pelo Vaticano, que inclui provar a autenticidade de milagres. Padre Ovídio de São Boaventura, se não fez milagre, como se diz de algo extraordinário, para alguns um fato sobrenatural, dedicou sua existência, de forma absoluta, ao bem da coletividade. Se não foi um santo, viveu em santidade!
Feira de Santana – na sua rica história –, da nascente vila dos Olhos D’Água à metrópole cosmopolita dos dias atuais, registra com abundância personalidades fulgurantes quais astros do firmamento, que permanecem brilhantes mesmo com o passar do tempo. De maneira extensiva e abrangente, contemplando os mais diversos segmentos da comunidade, são pilares que, funcionando de forma orgânica, como uma máquina bem ajustada, contribuem para o seu desenvolvimento. No segmento religioso, a Terra de Senhora Santana é pródiga e assinala a existência de figuras imorredouras pelo trabalho desenvolvido em prol da coletividade, de maneira dedicada e fraterna.
Ovídio Alves de São Boaventura está incluído entre os nomes mais expressivos da vida feirense, não apenas pela sua atuação no âmbito da Igreja, como pelo exemplar e incomum exercício de cidadania, com flagrante demonstração de respeito e preocupação com o seu semelhante. Feirense, nascido em 23 de julho de 1842, filho do capitão Manuel Alves de São Boaventura e Maria Joaquina de São Boaventura, Ovídio foi um menino muito bem orientado pelos pais e, após concluir, com brilho, os estudos primários em Feira de Santana, foi matriculado no Seminário de Santa Tereza, em Salvador. Tinha profunda preocupação com as causas sociais que entendia terem ligação direta com a religião e dela deveriam receber merecida atenção.
Em agosto de 1864, aos 22 anos de idade, foi ordenado sacerdote e, logo após, em 1865, um ano depois, foi nomeado Vigário Coadjutor do Vigário Colado da Freguesia de Santana, que, em 1873, já exibindo visível crescimento, passou a ser designada como Cidade Comercial de Feira de Santana. Ovídio de São Boaventura, atento às aspirações comunitárias, criou, em 1873, a Sociedade Filarmônica Vitória. Naturalmente, sem contar com a tecnologia de hoje, a disseminação da música popular, em eventos religiosos, era feita através das bandas musicais. Sempre atento à movimentação da comunidade, o sacerdote atendia, assim, a um pleito popular. Três anos depois, em 1876, ele criou o Monte Pio dos Artistas Feirenses, considerado o primeiro organismo de função social que se tem notícia.
O Monte Pio teve vital importância para boa parte da população menos favorecida, onde estavam os pedreiros, alfaiates, marceneiros, sapateiros, barbeiros, mecânicos, pintores e artesãos de modo geral, que eram chamados artistas, já que essas e outras atividades similares eram classificadas como artes e os seus praticantes, artistas. O tradicional Asilo Nossa Senhora de Lourdes, até hoje ornando a parte inicial da Avenida Senhor dos Passos, foi outra obra imorredoura do Padre Ovídio de São Boaventura, datada de 1879.
Mente brilhante, coração bondoso, olhar atento aos anseios da comunidade, foram ainda de sua proposição a fundação da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco, a Escola Santana, a reconstrução da Igreja Matriz e a constituição de um aprendizado agrícola. Todavia, a sua participação na luta pela libertação dos escravos insere-se como um magnífico capítulo na seara do feirense Ovídio de São Boaventura, que faleceu jovem, aos 46 anos de idade, em 1886, sem conhecer a abolição da escravatura pela qual ele tanto lutou, ocorrida em 1888, dois anos após a sua morte. Padre Ovídio, pelo que se sabe, nunca fez milagre, algo sobrenatural, mas viveu com a pureza de um santo.
Em sua homenagem, há uma estátua na praça que tem seu nome, contígua à Praça da Catedral. A estátua teria sido elaborada na França pelo artista francês André Jacques, por encomenda do intendente Joaquim de Melo Sampaio (1890/1892) e instalada na praça por volta de 1900, por José Freire de Melo, segundo intendente de Feira de Santana. Originalmente, a estátua ficava no centro da praça, mas foi relocada para a área onde está atualmente, fato que aconteceu como parte da reforma procedida no logradouro, durante a administração do prefeito Newton da Costa Falcão (1971/1973).
Fonte: PMFS





