A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
Com justa razão foi chamado ‘o Santo da Bahia’ pela sua trajetória de fé, amor e sacrifício, só concluída pouco antes de completar 90 anos de idade, quando, já debilitado, faleceu. Henrique Alves Borges, feirense do distrito de Humildes, foi um vocacionado que cumpriu seus desígnios, atraindo novos fiéis a cada dia, pela sua extrema religiosidade.
A vocação é algo nato, pelo menos em alguns casos, como este do padre Henrique que, embora hoje não seja muito conhecido, chegou a ser chamado de ‘o Santo da Bahia’ e considerado um dos mais importantes sacerdotes do Recôncavo Baiano. Henrique Alves Borges nasceu no distrito de Humildes, em 15 de março de 1870, um dos cinco filhos do respeitado casal Liberato e dona Clotilde Alves Borges. Foram seus irmãos: Augustinho, Justo, José Evilásio e Mariquinha.
Seu Liberato e dona Coió, como a mãe dele era conhecida, dedicavam enorme afeição aos filhos e forte formação cristã. Muito cedo o garoto Henrique demonstrou enorme sensibilidade e preocupação com as pessoas da comunidade, procurando ajudá-las da melhor maneira possível. Com um jeito especial, jamais deixava de se referir ao exemplo de amor dado por Jesus Cristo, exortando para que cada cidadão, mesmo com as suas naturais limitações humanas, buscasse imitá-lo.
Demonstrando claramente a sua vocação, Henrique era impossibilitado de se aprofundar nos estudos devido à situação financeira da família, problema que foi resolvido com a interferência de Jose Borges da Costa Falcão, que se responsabilizou pelos estudos do seu jovem sobrinho em Salvador. Surgia assim uma nova etapa na vida de Henrique, que foi internado no Seminário de Santa Tereza, dedicando-se aos estudos religiosos com fervor. Em 7 de setembro de 1919 recebeu o Sagrado Presbitério, outorgado pelo Arcebispo da Bahia, Dom Jerônimo Tomé da Silva, sendo ordenado como sacerdote, assim como desejara desde criança em Humildes. Tinha então 40 anos de idade.
Nomeado por Dom Jerônimo como pároco da Freguesia de Nossa Senhora dos Humildes, assumiu o cargo com justa emoção em janeiro de 1911. Estradas vicinais de terra, com piso irregular, cheias de buracos, impraticáveis no inverno e falta de veículos automotores, mas nada disso era motivo para afastá-lo dos seus paroquianos. Um bom jumento resolvia, e ele ia de comunidade a comunidade levando sua mensagem de amor, fé e humildade.
Tornou-se uma figura querida aonde chegasse e, pelas suas virtudes e abnegação, passou a ser chamado “o Santo da Bahia”. Vivia com dedicação extrema a vida paroquial, e era digno de ser visto o seu empenho na consecução da Festa de Nossa Senhora da Ajuda, no Limoeiro, e na Festa de Nossa Senhora dos Humildes, no distrito que tem igual nome. Organizava ainda as Santas Missões com apoio dos Frades Carmelitas, especialmente os frades Pascoal e Joaquim.
A festa religiosa na comunidade de Humildes, independente de massiva participação popular, recebia autoridades religiosas como Monsenhor Mário Pessoa, de Feira de Santana, padre Arcelino de Oliveira, de Oliveira dos Campinhos, padre Fenelon, de Santo Amaro da Purificação, e o padre Bráulio, de São Gonçalo dos Campos. Há episódios marcantes em sua vida. Determinado dia foi confessar um enfermo pobre que estava totalmente despido; mostrando seu desprendimento, deu-lhe toda a roupa que dispunha, vestindo-se apenas com uma velha e surrada batina.
Já idoso, sofrendo as limitações impostas pelos mais de 80 anos de trabalho e com a visão deficiente, praticamente cego, percorria com dificuldade as ruas de Humildes na sua missão evangelizadora, e muitas pessoas a ele se dirigiam, interrompendo o seu andar arrastado, para pedir bênção e beijar-lhe as mãos. O cônego Henrique Alves Borges, falecido aos 89 anos em 21 de abril de 1959, é nome de um estabelecimento escolar em Humildes, terra que ele amou e honrou durante toda a sua existência. Essa homenagem talvez não condiga com a magnífica trajetória missionária que marcou a existência do “Santo da Bahia”.
Por Zadir Marques Porto
Fonte:Prefeitura de Feira







