A história recente de Feira de Santana no enfrentamento à violência contra a mulher passa pela trajetória da delegada Maria Clécia Vasconcelos de Moraes Firmino Costa. Alagoana de nascimento, ela vive na cidade desde 2005 e construiu uma carreira marcada pela atuação na Polícia Civil, especialmente na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), além da atividade como professora e palestrante na área do Direito.
Em agosto de 2026, após mais de três décadas de serviços prestados à segurança pública, Clécia teve sua aposentadoria voluntária publicada no Diário Oficial do Estado da Bahia. O encerramento da carreira policial acontece depois de uma trajetória que também incluiu a coordenação de unidades regionais, a titularidade de delegacias em Feira de Santana e a atuação na defesa de mulheres, crianças e adolescentes.
A relação com Feira começou antes de sua aposentadoria e se consolidou também fora das funções policiais. Em 2016, a Câmara Municipal concedeu a Clécia o Título de Cidadã Feirense, reconhecendo a ligação construída com o município.
Referência no enfrentamento à violência contra a mulher Foi na DEAM de Feira de Santana que Maria Clécia se tornou uma das figuras mais conhecidas da Polícia Civil na cidade. Ela comandou a unidade em diferentes períodos, com atuação voltada à investigação de crimes e ao atendimento de mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
Durante sua passagem pela delegacia, também participou de debates públicos sobre a necessidade de ampliar a estrutura de atendimento às mulheres. Em entrevista concedida em 2016, por exemplo, defendia que as delegacias especializadas tivessem funcionamento ampliado para facilitar o acesso das vítimas à denúncia
A atuação na área também esteve relacionada à sua formação. Clécia é graduada em Direito pela Faculdade de Maceió, possui especialização em Ciências Criminais pela Universidade do Sul de Santa Catarina e em Questões de Gênero e Violência a Grupos Vulneráveis pelo Sinesp. Também é mestre pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Essa combinação entre experiência policial e formação acadêmica tornou-se uma das marcas de sua trajetória.
Da delegacia para a sala de aula
Além do trabalho na Polícia Civil, Clécia construiu uma segunda frente de atuação em Feira: a formação de profissionais do Direito. Como professora universitária e palestrante, lecionou disciplinas relacionadas às Ciências Criminais e participou de atividades acadêmicas voltadas à violência contra a mulher, direitos humanos e segurança pública. Também integrou o Observatório da Lei Maria da Penha da Faculdade da Região Sisaleira (FARESI) e fez parte do corpo docente de instituições de ensino superior em Feira.
A experiência acumulada na Polícia Civil passou, assim, a fazer parte também da formação de estudantes que posteriormente ingressariam no Direito, na advocacia, na segurança pública e em outras áreas relacionadas à Justiça.
Uma carreira além da DEAM
Embora a atuação na defesa das mulheres seja um dos principais capítulos de sua história profissional, a carreira de Maria Clécia foi mais ampla.
Na Polícia Civil da Bahia, ocupou a titularidade da 2ª Delegacia Territorial de Feira de Santana e esteve à frente das Coordenadorias Regionais de Polícia do Interior (Corpins) de Irecê, Serrinha e Itaberaba. Nos últimos anos de atividade, depois de deixar a titularidade da DEAM em 2025, assumiu a Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI) de Feira de Santana e também esteve ligada à Delegacia Especial de Repressão aos Crimes contra Crianças e Adolescentes (Dercca). A passagem por diferentes unidades ampliou sua atuação para além da violência contra a mulher, alcançando também a proteção de outros grupos vulneráveis.
O reconhecimento de Feira A trajetória construída no município recebeu um dos seus principais reconhecimentos em 2025, quando Maria Clécia foi homenageada com a Comenda Maria Quitéria, uma das mais importantes distinções concedidas pela Câmara Municipal. A solenidade ocorreu em 7 de agosto, data que marca a criação da Lei Maria da Penha. Ao receber a honraria, Clécia afirmou que dividia a conquista com as mulheres que enfrentam diariamente suas “batalhas silenciosas”.
Também destacou que Feira de Santana lhe proporcionou não apenas espaço profissional, mas “afeto, raízes e sentido de pertencimento”. A homenagem sintetizou duas dimensões de sua trajetória: a atuação profissional no serviço público e a relação construída com a cidade ao longo de mais de duas décadas.
Um legado que permanece Com a aposentadoria, Maria Clécia encerra sua trajetória como servidora da Polícia Civil, mas deixa uma contribuição que ultrapassa os cargos que ocupou. Seu legado em Feira de Santana está relacionado à defesa das mulheres vítimas de violência, à atuação na segurança pública, à formação de profissionais do Direito e à presença em debates sobre direitos humanos e proteção de grupos vulneráveis.
Por Danilo Guerra/Feira do Estado




