Estudo pioneiro avalia técnica com pulsos elétricos como terapia adjuvante e apresenta resultados iniciais promissores
Pesquisadores do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), a maior instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina, conduzem um estudo pioneiro que pode representar um avanço no tratamento da esporotricose felina no Brasil. Pela primeira vez, a instituição testa o uso da eletroporação — técnica que utiliza pulsos elétricos — como terapia adjuvante contra o fungo Sporothrix em gatos.
O estudo é realizado em parceria com o médico-veterinário e pesquisador Carlos Brunner, fundador da startup Akko Health Devices, responsável pelo desenvolvimento de um equipamento inédito de eletroporação voltado ao combate do fungo causador da doença.
A esporotricose é uma infecção fúngica que provoca lesões cutâneas e mucosas profundas e é considerada uma zoonose, podendo atingir gatos e humanos. O tratamento convencional com antifúngicos orais em felinos exige administração diária por meses, tem custo elevado e nem sempre apresenta resultados satisfatórios. A doença tornou-se de notificação obrigatória em humanos pelo Ministério da Saúde em janeiro deste ano. Apenas o estado de São Paulo já registrou mais de 7.700 casos em humanos na última década, sendo a maior parte concentrada a partir de 2020.
Coordenado pela médica-veterinária Isabella Dib Gremião, do INI/Fiocruz, o projeto foi desenvolvido em parceria com Brunner, especialista em eletroporação aplicada à veterinária. Segundo os pesquisadores, os dados iniciais indicam evolução clínica significativa, inclusive em casos considerados de difícil tratamento.
“Os primeiros casos tratados foram de gatos com quadros mais graves, que não apresentavam resposta satisfatória aos tratamentos antifúngicos convencionais (…) Os resultados iniciais são encorajadores, com melhora clínica das lesões e, em alguns casos, cura clínica. No entanto, ainda estamos em uma fase inicial de avaliação”, afirmou Isabella.
Brunner também destacou os desafios do tratamento convencional e o potencial da nova técnica. “Quem tem gato sabe que dar remédio via oral é muito difícil (…) Dessa forma, há um desperdício de tempo e dinheiro, além do risco de transmissão da doença”, explicou.
Desafio para a saúde pública
Com a disseminação da esporotricose no país, os pesquisadores defendem uma abordagem integrada para o controle da doença. Segundo Isabella, ainda faltam programas estruturados de controle, acesso ampliado ao diagnóstico e tratamento, além de ações de manejo populacional de gatos.
Ela também ressalta a necessidade de capacitação de profissionais veterinários e integração entre saúde animal, humana e ambiental no enfrentamento da zoonose.
“Ainda hoje, faltam programas oficiais estruturados de controle (…) O enfrentamento precisa integrar saúde animal, saúde humana e ações ambientais”, afirmou.
A pesquisadora reforça ainda o papel dos tutores no controle da doença, com medidas como manter gatos dentro de casa, realizar castração, buscar atendimento veterinário ao identificar lesões e seguir corretamente o tratamento.
Inovação com pulsos elétricos
Batizado de SPORO PULSE, o equipamento desenvolvido pela Akko Health Devices atua por meio de pulsos elétricos que afetam diretamente o fungo, preservando as células do animal.
“Trabalho com eletroporação há 18 anos e vi nesta técnica a possibilidade de provocar a formação de poros irreversíveis nos fungos, matando o agente e preservando o tecido normal do gato”, explicou Brunner.
Fonte: Bahia.ba






