ALMEIDA (CEPÃO): PERNAS TORTAS, MUITOS GOLS E NENHUM DINHEIRO NO BOLSO

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A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade 

Pernas tortas, lembrando Garrincha, com o qual chegou a ser comparado, um “canhão” em cada pé e cabeceada mortal. Cepão surgiu no Ypiranga de Feira e foi artilheiro no Fluminense, campeão baiano de 1963. Humilde, não ficou no Botafogo do Rio de Janeiro e não quis ir para Portugal. Parou cedo, aos 27 anos, e teve um final de vida honesto, marcado pela pobreza.

Na época, o futebol de pernas tortas encantava e era o melhor do mundo. Garrincha, na sua primitiva ingenuidade, era autêntico dentro de campo e, com as pernas tortas, entortava os adversários sem dificuldades. Em Feira de Santana, também de pernas tortas, surgia no Ypiranga, tradicional equipe do futebol local, o atacante Cepão, provavelmente devido ao físico muito forte, semelhante a um cepo, ou tronco de madeira. Em 1959, no forte futebol da Cidade Princesa, Cepão começou a entortar os zagueiros e os goleiros, que sofriam para deter os “petardos” do atacante que, embora destro, usava o pé esquerdo com a mesma potência e era fatal na cabeceada.

Assim como Val, Mundinho, Ubaldo, Luís Alberto, Adilson, Chinesinho e vários outros craques surgidos na época no amadorismo local, Cepão foi parar no quadro de aspirantes do Fluminense (a categoria aspirante já não existe), time bicampeão baiano invicto (1960/1961). No certame de 1961, Cepão, que passou a ser Almeida (Carlos Almeida da Silva), marcou 24 gols dos 63 assinalados pelo time do Fluminense, mais gols que todos os demais clubes reunidos. Desse modo, foi natural a ascensão de Almeida para o time profissional, dirigido pelo técnico Antônio Conceição, campeão baiano de 1963.

Caladão, observador, com as pernas grossas e tortas, o que parecia torná-lo pesado, mas sem os cabelos descoloridos e tatuagens dos “craques” atuais, Almeida passou a ser cogitado por vários clubes, dentre eles o Botafogo, onde atuava, com similaridade física, o famoso Garrincha. Em General Severiano tinha tudo para dar certo, mas o esplendor da Cidade Maravilhosa e a dimensão do Botafogo, em comparação ao pequeno Ypiranga de Feira de Santana, onde ele havia começado quatro anos antes, amedrontaram o jovem feirense, que jamais imaginara um dia estar ao lado de Nilton Santos, Garrincha, Gérson, Quarentinha, Manga, Zagallo e outros craques que ele admirava. Achou que não daria certo, tremeu e, sem confiança, pediu para voltar imediatamente. “Saudade de casa”, alegou, perdendo uma grande oportunidade. Falou-se no interesse do Palmeiras, e o Futebol Clube do Porto fez uma sondagem, mas, se o Rio de Janeiro atemorizou Cepão, era difícil imaginá-lo no distante Portugal.

Em 1967, com a chegada do técnico carioca Walter Miraglia, que trouxe quase um time inteiro de aspirantes do Flamengo, o artilheiro de pernas tortas entendeu que não teria chance na equipe principal do tricolor e resolveu parar. Um ano depois, o técnico Sotero Monteiro, do Ypiranga de Salvador, veio buscá-lo, mas a atrofia na perna direita disse não. As fortes dores decretaram o fim de sua carreira aos 27 anos de idade. Durante algum tempo, ele trabalhou em uma empresa de segurança bancária. Em 2004, faleceu pobre e esquecido pela torcida do time que ele amou e ao qual proporcionou tantas alegrias com seus gols. Uma joia do tempo em que futebol não significava fortuna.

 

 

Fonte: Prefeitura de Feira 

Texto por: Zadir Marques Porto

Divulgação - Arquivo Carlos Bacelar
foto Divulgação - Arquivo Carlos Bacelar
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Sou Jornalista formado desde de 2014, radialista. Sempre em busca da informação