A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
Surgido no futebol local com sucesso e depois de passar pelo Fluminense, América Mineiro, Jequié e outras equipes, cogitado pelo futebol da Noruega, o atacante Boy sofreu grave acidente de automóvel que o tirou definitivamente dos gramados. Com notável capacidade de compreensão, resistência e resignação, ele se mantém sereno e grato ao que a vida hoje lhe oferece.
“Aproveito o que a vida me deu.” A frase espontânea não é de um filósofo, mas de um homem que aprendeu a viver com o sofrimento, extraindo dele os melhores momentos. Do alto dos seus 1,87 m, o feirense Edmilson Cerqueira da Silva guarda, com o largo sorriso, uma história que deveria ter sido bem diferente. Aos 13 anos de idade, Boy (Edmilson) mostrava qualidades ‘debaixo dos três paus’, como se diz na linguagem do futebol, mas entendeu que fazer gols é melhor do que evitá-los. Aos 14 anos, foi visto por Arsênio Santos, ex-zagueiro do Vasco F.C., ou ‘o Vasco de 74’, já que era treinado e mantido pelo sempre lembrado desportista Setenta e Quatro (José Francisco dos Santos).
“Quer jogar bola, garoto?” A pergunta de Arsênio nem precisava de resposta, e logo Boy estava treinando entre os titulares do alvinegro, que revelou o saudoso Paulo Roberto (jogou no Vasco carioca). Foi rápida passagem em direção ao Fluminense de Feira. Alto, veloz, bom cabeceador, drible fácil e chute forte com ambos os pés, aos 18 anos, chamando a atenção de alguns clubes, foi parar no América de Minas Gerais. Ganhou a camisa titular no ataque e lembra que, nesse período, Fred, que foi artilheiro no Fluminense carioca, estava começando no time mineiro.
Sem experiência de vida, passou por vários clubes como o Galícia, o Bahia de Feira em duas oportunidades, o Jequié e o Astro. Em 1999, em carro próprio, um Gol do ano, seguia para Jequié, onde iria jogar, quando tudo aconteceu. No contorno da rodovia, o veículo capotou. Um mês depois, no Hospital MEC, nesta cidade, é que ele veio saber o que havia acontecido e, como não bebia — ‘hoje, às vezes, belisco uma cerveja’ —, não tem explicação para o acidente. Fraturas, inclusive de costelas, o que complicou bastante o quadro geral, e um longo estado de coma, sem conseguir falar. Ele agradece a valiosa atenção de médicos e demais profissionais de saúde durante a fase crítica do tratamento e, em especial, ao doutor Cleanto, respeitado neurologista.
Transferido para o Hospital Sara Kubitschek, em Salvador, ressalta a qualidade do hospital, ‘de primeiro mundo’, e isso foi importante no processo de recuperação, que ainda continua. ‘Faço fisioterapia, pilates e uso um remédio antidepressivo’, revela. Durante muito tempo, usou muletas, posteriormente uma bengala para se locomover e ainda mostra certa dificuldade nos movimentos quando anda. Dezessete anos depois do acidente, quando seu nome estava sendo cogitado pelo futebol da Noruega, Boy mostra impressionante compreensão da vida. Sorridente, amigável, em nenhum momento é áspero, nem reclama. Observador, lamenta a má qualidade do futebol atual em relação aos salários milionários, além da assistência e comodidade oferecidas aos atletas, o que não havia antes. É torcedor do Fluminense de Feira e do Corinthians, clube que ele gostaria de ter defendido. Tem camisas do Timão, inclusive uma que lhe foi dada, pessoalmente, pelo artilheiro peruano Paolo Guerrero.
Boy destaca Geraldo Pereira, do Fluminense, como o melhor técnico da sua breve carreira e aponta o América Mineiro como o melhor time entre os que atuou. Fez bons amigos no futebol com Marcão, goleiro do América, e vários outros nomes em Feira de Santana. Torneiro mecânico com diploma, também tem formação e pós-graduação universitária em Economia e curso concluído em Marketing Esportivo. Hoje aposentado, Boy (Edmilson Cerqueira), bastante caseiro, ocupa o tempo lendo, assistindo futebol na tevê, jogando dominó e baralho com amigos e, ocasionalmente, ‘beliscando’ uma cerveja.
A dedicada esposa Claudineide ocupa-se com a direção da empresa Festa Mix, e a filha Akila é enfermeira. Não nega que houve momentos extremos de tristeza e depressão, mas o largo sorriso deixa claro que, com muita fé, persistência e resignação, está vencendo a longa batalha provocada pelo acidente há 17 anos e, como ele mesmo gosta de filosofar: “Aproveitando o que a vida me deu”.
Por Zadir Marques Porto





