Desespero em ligação, andar atingido por avião e corpos vaporizados: quem eram os três brasileiros mortos no 11 de Setembro

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Às 8h46 de 11 de setembro de 2001, Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa, Anne Marie Sallerin Ferreira e Sandra Fajardo Smith já estavam no trabalho. Os três brasileiros haviam construído carreiras em Nova York e ocupavam escritórios nos andares mais altos da Torre Norte do World Trade Center.

Naquela manhã de céu aberto, o voo 11 da American Airlines atingiu o edifício entre o 93º e o 99º andar. O impacto interrompeu as rotas de saída dos pavimentos superiores e transformou uma jornada comum de trabalho nos últimos momentos de quase 1.400 pessoas que estavam acima ou na região da colisão.

Ivan, Anne Marie e Sandra figuram entre os três brasileiros oficialmente reconhecidos como vítimas dos ataques. Tinham entre 29 e 37 anos, trabalhavam no mercado financeiro e deixaram familiares à espera de notícias que nunca chegaram.

Amigos no 105º andar

Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa tinha 30 anos e havia chegado a Nova York em 1999. Formado em administração de empresas, conseguiu uma vaga como corretor na Cantor Fitzgerald, companhia financeira que mantinha seus escritórios entre o 101º e o 105º andar da Torre Norte.
 A mudança representava um passo importante na carreira do paulistano. Contudo, na manhã dos ataques, a localização do escritório eliminou praticamente qualquer possibilidade de fuga. O avião atingiu o prédio abaixo das instalações da empresa e destruiu as escadas que ligavam os andares superiores ao restante da torre.

Ivan ainda conseguiu estabelecer contato por rádio com colegas. As informações transmitidas indicavam que ele procurava uma saída ao lado de Anne Marie Sallerin Ferreira, amiga de infância que trabalhava na mesma companhia.

Anne Marie tinha 29 anos e era engenheira química. Depois de morar em Londres, havia se mudado com o marido para os Estados Unidos poucos meses antes do atentado. Em Nova York, ingressou na Cantor Fitzgerald e passou a trabalhar no 105º andar, próximo a Ivan.

A empresa sofreu a maior perda humana entre todas as companhias instaladas no World Trade Center. Ao todo, 658 funcionários da Cantor Fitzgerald morreram naquele dia. Nenhuma das pessoas que chegou ao trabalho nos escritórios da companhia antes do impacto conseguiu deixar o edifício.

Sandra no 98º andar

Sandra Fajardo Smith, de 37 anos, nasceu em Belo Horizonte e trabalhava como contadora da Marsh & McLennan. Seu escritório ficava no 98º andar da Torre Norte, justamente na região atingida pelo avião.
Em Nova York, Sandra cultivava uma vida cercada por parentes e amigos. Registros preservados pela própria empresa descrevem uma mulher expansiva, dedicada à família e satisfeita com a trajetória construída nos Estados Unidos.
Naquela manhã, porém, a área ocupada pela Marsh & McLennan recebeu o impacto direto do voo sequestrado. A empresa perdeu 295 funcionários e 63 consultores que estavam em seus escritórios.

Os nomes de Sandra, Ivan e Anne Marie permanecem gravados no Memorial Nacional do 11 de Setembro, erguido no local onde ficavam as Torres Gêmeas. As inscrições devolvem identidade às vítimas e impedem que suas histórias desapareçam atrás do número de mortos.

Famílias esperaram notícias

Após o desabamento, parentes dos brasileiros iniciaram uma busca marcada por telefonemas, informações desencontradas e listas improvisadas de sobreviventes. Hospitais receberam milhares de consultas, enquanto famílias percorriam centros de atendimento e tentavam reconhecer rostos em fotografias.
A ausência de corpos prolongou a espera. Durante vários dias, qualquer informação alimentava a possibilidade de que Ivan, Anne Marie ou Sandra estivessem feridos e ainda não tivessem conseguido entrar em contato.
Com o passar do tempo, a esperança cedeu lugar à constatação da morte. Para as famílias, o luto começou sem despedida, sepultamento ou a recuperação dos restos mortais de seus parentes. Os ataques mataram 2.977 pessoas em Nova York, no Pentágono e na Pensilvânia, sem contar os 19 sequestradores. Desse total, 2.753 morreram no World Trade Center e nas áreas próximas.

Dois nomes ausentes

A contagem oficial brasileira, entretanto, não encerra completamente essa história. Nilton Albuquerque Fernão Cunha e Claudino Antunes Braga também desapareceram depois dos ataques, mas seus nomes não integram a relação reconhecida pelo memorial.

Nilton era engenheiro, tinha 41 anos e estaria no 108º andar da Torre Norte. A família recebeu formulários para fornecer dados que ajudariam na identificação genética, mas não enviou amostras de DNA. Sem essa etapa, as autoridades não formalizaram sua inclusão na lista.

Claudino, por sua vez, tinha 48 anos e havia entrado de maneira irregular nos Estados Unidos. Pouco antes do atentado, contou a um primo que trabalhava como engraxate no complexo. A mulher e os três filhos, que desconheciam sua viagem, nunca mais tiveram notícias dele.

Uma apuração publicada pela Folha de S.Paulo mostrou que ambos continuam fora dos registros oficiais. Assim, enquanto Ivan, Anne Marie e Sandra receberam homenagens no memorial, Nilton e Claudino permanecem em uma espécie de ausência documental.

Vinte e cinco anos depois, recordar os brasileiros mortos no 11 de Setembro significa recuperar os projetos, os afetos e as famílias que existiam antes daquela manhã. Os nomes gravados em Nova York pertencem a pessoas que atravessaram fronteiras em busca de oportunidades e tiveram suas trajetórias interrompidas no lugar onde planejavam construir o futuro.

 

 

Fonte: Correio 24 horas

Reprodução/Legacy.com e Voices Center for Resilience
foto Reprodução/Legacy.com e Voices Center for Resilience
Vicente Santos é responsável pelas informações e imagens apresentadas nesta postagem.Radar News não se responsabiliza pelo conteúdo publicado.
Sou Jornalista formado desde de 2014, radialista. Sempre em busca da informação