FEIRA LIVRE: O VERDADEIRO SHOW DA VIDA QUE FICOU PARA TRAS

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As feiras livres de hoje organizadas e padronizadas, para oferecer qualidade e segurança ao público, refletem a época, portanto distante do que apresentavam décadas atrás, quando esse comércio popular a céu aberto, era muito mais que um movimento de compra e venda. Com figuras que mais pareciam sair de um filme de ficção, ricas em inspiração e invencionice, a feira livre de Feira de Santana, assemelhava-se a um espetacular show da vida. 

 

Elas existem há muito tempo, em todos os pontos do país e fora dele, já que é algo histórico surgido com os primeiros conglomerados humanos e assim pode ter formato, funcionamento, dias e aspectos diferentes, o que não lhes tira a importância. As feiras livres hoje sofrem mutações aceleradas, que se pode considerar normais, ou de acordo com a apressada desumanizadora da agressiva era da Inteligência Artificial. Mas, vivenciar a feira livre de Feira de Santana, que foi considerada a maior do país era, independente de tudo, uma experiência incomum, um verdadeiro ‘show da vida’. 

 

Quando foi substituída pelo Centro de Abastecimento em 1977, a feira livre ocupava todo o setor comercial, a partir da Praça da Bandeira até as imediações do Feira Palace Hotel, na Avenida Getúlio Vargas, com sintomas indisfarçáveis de que iria continuar seu processo expansionista. Frutas, verduras, carnes, calçados, roupas, doces, bebidas, pequenos animais, arreios, instrumentos musicais, jogos, equipamentos agrícolas, enfim tudo aquilo que, de algum modo, poderia atender ao imenso público, majoritariamente oriundo da zona rural de dezenas de municípios baianos. 

 

Mas em meio a esse oceano de gente e coisas, figuravam não como extras, mas com verdadeiros protagonistas: cordelistas, acrobatas, poetas, cantores, faquires, profetas, propagandistas e vendedores especialmente de remédios, que davam à feira livre aspecto de um grande carrossel de atrações. Manoel Remendão era uma dessas figuras difíceis de passar despercebidas, principalmente pelo show que encenava para vender sua ‘pasta de sucuri’, uma espécie de pomada, indicada para combater uma série de males. Ele começava estendendo no chão o couro de uma cobra sucuri de oito metros de comprimento, que afirmava ter matado em violento combate, usando apenas um pedaço de pau. 

 

Extasiava o público saltando sobre o couro da serpente que, embora não venenosa atinge grandes dimensões e pode engolir um ser humano, para mostrar como abatera o animal em ferrenha luta com um porrete. Pulando, gritando, contorcendo-se como um índio, armado de tacape, Remendão suava, mostrando como fora a terrível luta e vendia a mercadoria que dizia fazer efeito. Algumas pessoas compravam mais para assistir ao show do camelô. Outro ‘artista’ era o Chico Capivara. Batizado Francisco, foi ’rebatizado’ de Chico Capivara devido ao fato de produzir e vender, na feira livre, um produto pastoso que teria como matéria prima a capivara. Como grande eloquência propagava que o ‘remédio’ era muito bom e sempre tinha alguém que saía da multidão para dar o testemunho. Para reforçar a ideia, usava um couro de capivara como uma espécie de chapéu. 

 

Outra figura que chamava atenção era um homem alto e magro, misto de sertanejo e indígena, sempre usando chapéu preto, com algumas penas, que vendia banha do ‘verdadeiro sapo cururu’ como era anunciada, tida como muito eficiente para determinados males. Todavia, conforme algumas pessoas comentavam, esse produto requer conhecimentos e cuidados para ser utilizado. Nessa relação de remédios populares vendidos na feira livre sem qualquer impedimento, já que não existia fiscalização, estava uma fórmula ‘milagrosa’ extraída do fígado do urubu, indicada contra a asma. Esse produto contava com o veredito de pessoas que garantiam a eficiência. 

 

Além dos propagandistas de remédio e outros produtos, mágicos, faquires e malabaristas atraíam o público. Manoel Engole Fogo, muito conhecido já que morava na Queimadinha, fazia dessa atividade um trabalho sério, tanto que faleceu com o corpo despelando, o que foi atribuído ao fato dele engolir uma espécie de cordão em chamas e depois expelir o fogo. Havia também os que tiravam proveito da ingenuidade popular. Lembra o cordelista Jurivaldo Alves que quando os frangos de granja (frangos brancos) começaram a ser criados na região, ainda sem o conhecimento necessário, não tinham boa aceitação no mercado. 

 

Sem ter como vender as aves, que não cresciam nem pegavam peso, alguns criadores usando da esperteza, amassavam a cabeça do frango, batendo com um pau, depois moqueavam e queimavam os pés, mudando totalmente a aparência do animal que era vendido como se fosse um jacu, ave muito requisitada e que hoje tem a venda proibida. Outro ‘golpe’ praticado por alguns, era vender ‘banha de ema’ falsa. Esse produto era obtido com o abate de peruas das quais era extraída a banha, vendida como se fosse da ema, produto então muito procurado. Havia fabricantes de remédios, perfumes, sabonetes e outros itens sem qualquer valor. Mas havia também aqueles que trabalhavam honestamente. Camelôs, propagandistas, violeiros, cordelistas e outros tipos populares que eram encontrados nas feiras livres, também contribuíram para a formação da metropolitana Feira de Santana. 

  Por Zadir Marques Porto

Matéria do site oficial Prefeitura de Feira de Santana

Arquivo Antonio Magalhães
foto Arquivo Antonio Magalhães
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Sou Jornalista formado desde de 2014, radialista. Sempre em busca da informação