Durante quase três séculos, uma parte importante da história de Salvador permaneceu guardada em silêncio dentro de um pequeno arquivo municipal localizado a quase 7 mil quilômetros da Bahia. Foi apenas em Cascais, antiga vila de pescadores nos arredores de Lisboa, que dois pesquisadores brasileiros encontraram documentos capazes de mudar o que se conhecia sobre a ocupação da capital baiana no século XVIII.
Entre manuscritos produzidos há mais de 300 anos, estavam dois mapas inéditos que retratam uma área praticamente ausente da cartografia histórica de Salvador: a faixa litorânea compreendida entre a foz do Rio Vermelho, na altura do atual Largo da Mariquita, e o Rio das Pedras, na Boca do Rio. O achado funciona como uma uma máquina do tempo e mostra, pela primeira vez, ilustrações de uma parte de Salvador que não existia em mapas da época.
A descoberta foi feita pelos pesquisadores Pablo A. Iglesias Magalhães e Felipe Peixoto Brito, dois Indiana Jones quando o assunto são relíquias baianas perdidas pelo mundo, durante uma investigação no Arquivo Histórico Municipal de Cascais. Segundo eles, o acervo português conserva documentos relacionados à Bahia que nunca haviam sido estudados por historiadores brasileiros, como a exploração de Itaparica, entre outros achados.
Datados de 1723 e 1799, eles revelam como era a paisagem onde hoje se encontram bairros como Amaralina, Pituba, Costa Azul, Armação, Boca do Rio e Pituaçu, muito antes da urbanização transformar completamente o litoral atlântico da capital. Existem inclusive casas e uma capela que pode ser um esboço do que seria depois a igreja da Nossa Senhora da Luz, ainda em análise, Também há armações que serviam como caça de baleia. Justamente por isso, existe a praia de Armação.
“Esse achado começou no ano passado, quando o Felipe encontrou esses documentos no Arquivo Histórico Municipal de Cascais, em Portugal. São mapas que eram completamente desconhecidos pela historiografia brasileira e retratam uma parte de Salvador que vai do Rio Vermelho até a Boca do Rio. Um deles é do início do século XVIII e o outro do fim desse mesmo século. O primeiro, ao que tudo indica, foi feito por um religioso, enquanto o segundo é de autoria de um cartógrafo profissional, José Fernandes Portugal, que tem uma trajetória de vida muito interessante e merece até uma biografia”, conta Pablo A. Iglesias, reforçando a importância do achado, pois já mostra demarcações de terras.
“O mais importante é que esses mapas mostram uma área da cidade que normalmente não aparecia na cartografia da época. A maioria dos mapas antigos se concentrava no núcleo urbano de Salvador, enquanto estes registram justamente o litoral que vai do Rio Vermelho ao Rio das Pedras. Como surgiram em função de disputas por terras, são extremamente detalhados e trazem informações muito precisas sobre limites de propriedades, caminhos e marcos territoriais. São documentos únicos nesse sentido”
Entre esses registros há papéis ainda mais antigos, como documentos de 1552 assinados durante o governo de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, referentes à doação de terras em Itaparica e no Rio Vermelho ao fidalgo português Antônio de Ataíde, Conde da Castanheira. Mas foram justamente os dois mapas do século XVIII que chamaram mais atenção.
“Os mapas mostram a região compreendida entre a foz do Rio Vermelho e o Rio das Pedras, que nasce na região do Cabula e deságua na Boca do Rio. É justamente o trecho onde hoje estão bairros como Amaralina, Pituba, Costa Azul, Armação e Boca do Rio. Eles registram antigas armações de pesca de baleias, que deram origem, inclusive, ao nome do bairro da Armação. Até onde sabemos, esse é o único registro iconográfico dessas estruturas, como as armações do Saraiva e do Gregório”, explica Pablo, que complementa.
“Também aparecem antigos caminhos, marcos de pedra que delimitavam propriedades, o Alto de São Francisco e construções religiosas, entre elas a antiga Capela de Nossa Senhora da Luz, além de outros elementos da paisagem que ajudam a compreender como essa parte de Salvador começou a ser ocupada”, conta.
Até hoje, os estudiosos dependiam principalmente de mapas produzidos ao longo do século XIX para compreender a expansão urbana de Salvador. O problema é que praticamente todos concentravam suas informações no centro histórico.
O famoso Mappa Topographica da Cidade de S. Salvador e seus Suburbios, elaborado em 1851 por Carlos Augusto Weyll, por exemplo, termina exatamente no Rio Vermelho. Outros importantes levantamentos cartográficos, como o mapa hidrográfico elaborado por Joaquim Marques Lisboa em 1863 e os trabalhos do engenheiro Morales de los Rios no fim do século XIX, também praticamente ignoram a área mais ao leste da cidade. Na prática, isso significava que a história cartográfica daquela região permanecia incompleta. Agora, essa lacuna começa a ser preenchida.
O mapa mais antigo, datado de 1723, guarda outra curiosidade. No verso do documento existe uma inscrição indicando que ele teria sido enviado da Bahia pelo frei carmelita Inácio da Madre de Deus em carta datada de 28 de novembro daquele ano. Conhecido como professor de música, filosofia e teologia, o religioso jamais havia sido associado à produção cartográfica. Caso a autoria seja confirmada, os pesquisadores acreditam que o documento amplia também o conhecimento sobre sua atuação intelectual.
O desenho registra marcos territoriais, caminhos e construções existentes na época. Entre elas aparecem as chamadas “Casas de D. Francisca”, possivelmente ligadas a Francisca Ferreira e ao marido, Manoel Gonçalves Saraiva, responsáveis pela reconstrução da antiga Capela de Nossa Senhora da Luz no final do século XVII. Já o segundo mapa, produzido em 1799, apresenta uma paisagem bem diferente.
Assinado pelo militar e cartógrafo José Fernandes Portugal, o documento foi elaborado para subsidiar uma disputa envolvendo terras pertencentes aos monges do Mosteiro de São Bento. Mais preciso tecnicamente, ele revela uma ocupação muito mais intensa da região.
O mapa também teve um propósito: briga por terreno. As duas cartas geográficas foram desenhadas em razão de uma briga pelas terras que teve origem nas demarcações realizadas por navegadores em 1582 e, depois, por monges do Mosteiro de São Bento em 1621, acusados de terem ampliado indevidamente suas propriedades.
Além dos antigos marcos de pedra utilizados para definir propriedades, aparecem armações de pesca, pequenas estradas, casas e uma malha urbana ainda embrionária, indicando que aquele trecho do litoral começava lentamente a ganhar novas formas de ocupação.
Ao comparar os dois documentos, separados por aproximadamente 76 anos, torna-se possível acompanhar parte da transformação daquela paisagem. Os mapas também ajudam a compreender os limites administrativos da antiga freguesia de Brotas, criada em 1718 pelo rei Dom João V. Na época, tratava-se de uma das maiores freguesias de Salvador.
Seu território começava na atual Ladeira dos Galés, seguia pela região onde hoje está a Avenida Djalma Dutra, alcançava o Rio das Tripas, atualmente canalizado sob as avenidas Cônego Pereira e Heitor Dias, encontrava o Rio Camarajipe nas proximidades da Rótula do Abacaxi e seguia em direção ao Cabula, Pernambués, Paralela e Boca do Rio, estabelecendo fronteiras com antigas freguesias como Santana, Santo Antônio Além do Carmo e Itapuã.
A descoberta aconteceu quase sem querer. Na verdade, o pesquisador Felipe Peixoto Brito, especialista na história de Itaparica, fazia um estudo de documentos antigos sobre a ilha e acabou encontrando os mapas. “Encontramos mais de cem páginas de documentos sobre a Capitania de Itaparica, com informações extremamente ricas. Como essa capitania não abrangia apenas a ilha, mas também áreas que hoje fazem parte de Salvador, como Rio Vermelho, Amaralina, Cabula e outras regiões, os documentos acabaram revelando informações preciosas sobre esses territórios”, conta.
Os mapas agora podem servir como guia para outros historiadores e pesquisadores da capital baiana. “Além do valor acadêmico, esses mapas têm um enorme interesse para o público em geral, porque revelam uma parte da história da cidade que permanecia praticamente desconhecida. Eles também mostram que ainda existem muitas descobertas a serem feitas sobre o Brasil colonial. A cada novo documento encontrado, novas peças são acrescentadas ao quebra-cabeça da formação de Salvador e da Bahia”, revela Peixoto.
Além de ampliar o conhecimento sobre a geografia da cidade, os mapas ajudam pesquisadores de áreas como arqueologia, urbanismo, arquitetura, patrimônio histórico e história ambiental. Eles permitem localizar antigos caminhos, compreender a distribuição das propriedades rurais, identificar a ocupação do litoral e acompanhar as transformações da paisagem antes do intenso processo de urbanização iniciado no século XX.
Fonte:Correio 24 horas





