Pesquisa liderada pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) mostra que alterações no sistema nervoso e nos vasos sanguíneos persistem mesmo com exames cardíacos normais
O avanço no tratamento do câncer de mama tem aumentado significativamente a sobrevida das pacientes. No entanto, um novo estudo publicado no Journal of the American Heart Association chama atenção para um efeito silencioso e de longo prazo: alterações cardiovasculares que podem surgir anos após o término da terapia mesmo quando exames indicam um coração aparentemente saudável.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceria com o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor) e instituições no Brasil e nos Estados Unidos.
O objetivo foi entender por que pacientes tratadas com medicamentos como doxorrubicina e trastuzumabe apresentam maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares ao longo do tempo.
Para isso, foram avaliadas 23 mulheres cerca de oito anos após o fim do tratamento, comparadas a um grupo controle saudável. Utilizando técnicas avançadas de análise, os pesquisadores identificaram uma hiperatividade do sistema nervoso nas pacientes — com níveis 31% superiores aos do grupo controle — indicando um estado de alerta constante que impacta o funcionamento do organismo.
Essa condição foi associada a uma redução de 26% na capacidade de realizar exercícios físicos. Além disso, as participantes apresentaram maior rigidez dos vasos sanguíneos, o que dificulta a circulação durante o esforço.
Embora a função de bombeamento do coração estivesse preservada, o estudo revelou sinais de desgaste sistêmico, como aumento do estresse oxidativo e alterações sanguíneas mudanças que não são detectadas por exames cardíacos convencionais.
Segundo o pesquisador Allan Kluser Sales, do IDOR, os resultados ajudam a compreender sintomas frequentemente relatados por pacientes após o tratamento. “Mesmo quando o coração parece normal, há uma disfunção relevante no sistema que regula a circulação. Isso pode explicar o cansaço persistente relatado por muitas mulheres anos depois”, afirma.
Na prática, os achados sugerem que sintomas como fadiga e baixa tolerância ao exercício não devem ser atribuídos apenas ao sedentarismo, podendo estar ligados a alterações fisiológicas duradouras provocadas pelas terapias.
O estudo reforça a importância do acompanhamento cardiovascular contínuo em mulheres que tiveram câncer de mama, especialmente aquelas submetidas a tratamentos com potencial cardiotóxico.
Por: Redação






